quarta-feira, 15 de maio de 2013

A "Ética" de Espinosa - Por Iasmin Martins

Biografia

           Nesse trabalho falaremos sobre a “Ética” do filósofo Benedictus ou Baruch de Spinoza. Tal pensador nasceu em Amsterdã na Holanda em 24 de novembro de 1632 e morreu em 1677. Spinoza era de uma família tradicional judia portuguesa, seu pai era comerciante e bem sucedido. O filósofo gostava muito de estudar, primeiro estudou teologia, depois abandonou para estudar Física e também aprendeu Latim.
          Spinoza passava a maior parte do tempo sozinho e se comunicava por cartas com alguns amigos e pensadores, ele usava trajes simples. Ao estudar teologia, Benedictus começa a criticar alguns princípios religiosos e por conta dos seus escritos é excomungado pelos judeus em 1652. Antes ele já havia sido excomungado, mas os judeus ainda deram a ele uma chance de se redimir e pedir perdão pelos seus pensamentos, no entanto o filósofo recusou e foi excomungado pela terceira vez. Essa excomunhão se chamava Shammatha, e era uma excomunhão definitiva que o bania completamente das sinagogas e do judaísmo. Veremos a seguir um trecho do Anátema de excomunhão:

Com a sentença dos anjos e dos santos, com o consentimento do Deus bendito e com o consentimento de toda congregação, diante destes santos livros, nós expulsamos, amaldiçoamos, e esconjuramos Baruch de Spinoza, com os seiscentos e treze preceitos que estão escritos neles, com o anátema com que Josué excomungou Jericó, com a maldição com que Elias amaldiçoou os moços, e com todas as maldições que estão escritas na lei. Maldito seja ele de dia e maldito seja de noite, maldito em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito ele em seu entrar.” (Anátema pronunciado contra Spinoza, em 27 de julho de 1656)

             Com a excomunhão ele foi proibido de se aproximar das pessoas a menos de 10 passos de distância e ninguém deveria se comunicar com ele, nem beber ou comer ou lavar-se na mesma água em que ele tomou banho. O que o tornou ainda mais solitário e também abandonado por sua família.
          Embora alguns intelectuais amigos de Spinoza o ajudassem financeiramente, Benedictus teve de aprender um ofício para se sustentar. Ele cortava e polia lentes ópticas e mais tarde passou a desenhar. Desse modo, ele podia se sustentar com um trabalho simples feito com as próprias mãos e terminar seus estudos. Não havendo mais nada que o prendesse em Amsterdã, ele partiu para casa de um conhecido na rota de Amsterdã a Auwerkerk. Mais ele se muda para Rynsburg, em seguida em Vooburg e depois em Haia.
           Spinoza sofria de tuberculose há muitos anos e tinha uma constituição muito frágil, e seu trabalho de polidor agravara suas péssimas condições respiratórias, devido ao pó do vidro das lentes que polia.  O pensador morre em Haia, em 21 de fevereiro de 1677, e foi enterrado dia 25 de fevereiro aos 44 anos de idade.
           As principais obras de Spinoza foram o Tratado teológico-político, Princípios da Filosofia de Descartes, Tratado da correção do intelecto, Reflexões metafísicas e a Ética, da qual falaremos agora.

Apresentação da Ética de Spinoza

        A Ética é uma obra póstuma, ou seja, foi publicada depois da morte de Spinoza, é escrita em Latim e é demonstrada segundo a ordem geométrica e dividida em cinco partes:
 I - Primeira parte - Deus
 II - Segunda parte - A Natureza e a Origem da Mente
 III - Terceira parte - A Origem e a Natureza dos Afetos
 IV - Quarta parte - A Servidão Humana ou A Força dos Afetos
 V - Quinta parte - A Potência do intelecto ou a Liberdade Humana
         A obra é dividida em definições, axiomas, proposições, demonstrações, escólios e corolários. Não podemos dizer que é um livro sobre a moral por se chamar Ética, alguns Spinozistas o encaram como uma forma de ver o mundo.
         Na parte I da Ética, os principais conceitos são: Deus sive natura, Substância, A ilusão do livre arbítrio e o preconceito finalista. Spinoza ficou conhecido por sua filosofia monista. Para tal autor Deus ou natureza eram nomes diferentes para a mesma coisa, e Deus era a substância primeira da qual todas as outras coisas existentes partem. A substância era sui generis, ou seja, aquilo que está na origem, ela não veio de alguma coisa, ela é causa em si mesma e só pode ser pensada por si mesma, e todas as outras coisas existentes são modos de expressão da substância, todos os outros seres têm uma coisa em comum, eles partiram de uma mesma substância. A Substância spinozista tem infinitos atributos. Os dois atributos que podemos conhecer são extensão e pensamento. A extensão seria o corpo ou matéria, e o pensamento seria o não-material, o conhecimento, a ideia, o processo. Uma cadeia rochosa, por exemplo, é formada por extensão e pensamento, os processos naturais que ela sofre são pensamento para Spinoza. Por isso o filósofo ficou conhecido por sua filosofia sem sujeito ou descentralizadora do sujeito. Para Spinoza o homem não era o centro de todas as coisas, mas assim como os outros modos da substância era formado também por extensão e pensamento, porém pensamento não era o mesmo concebido por Descartes (cogito), pensamento para Spinoza era todo o processo e fenômeno natural que ocorre no universo, independente de o homem conceber esses fenômenos. Tudo o que existe tem pensamento e está dado independente da existência do homem.
         Spinoza não faz a separação entre corpo e alma, como na filosofia dualista de Descartes, ele entende que o mundo mental e o físico coexistem numa mesma substância. Por isso sua filosofia ficou conhecida como panteísta ou monista. A única substância infinita é Deus e, apesar de denominar assim a substância, Spinoza não está falando do Deus judaico-cristão, pois não tem vontade ou finalidade, não é um ser que comanda todas as coisas lá do alto e que merece um culto ou uma prece.
         Para o holandês há certo determinismo na existência, todas as coisas acontecem por necessidade, por serem dadas do modo que devem ser e não de modo teleológico; até mesmo o comportamento humano é determinado, somos como marionetes e os eventos que ocorrem não dependem meramente da nossa escolha e da nossa vontade, pois as coisas se dão numa cadeia, numa rede de acontecimentos que não podemos controlar, e achar que podemos controlar e que somos livres para fazermos o que quisermos é o que Spinoza chama de ilusão do livre-arbítrio, além disso, achar que as coisas foram feitas para nós e que podemos usá-las como bem entendemos é o que ele chama de preconceito finalista. São esses os principais conceitos da Ética I que trataremos neste trabalho.

Trecho do texto de Spinoza
Apêndice da Ética I
Ética/Spinoza; tradução de Tomaz Tadeu, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

         “Ora, todos os preconceitos que aqui me proponho a expor dependem de um único, a saber, que os homens pressupõem, em geral, que todas as coisas naturais agem, tal como eles próprios, em função de um fim, chegando até mesmo a dar como assentado que o próprio Deus dirige todas as coisas tendo em vista algum fim preciso, pois dizem que Deus fez todas as coisas em função do homem, e fez o homem, por sua vez, para que este lhe prestasse culto. É esse preconceito, portanto, que, antes de mais nada, considerarei, procurando saber, em primeiro lugar, por que a maioria dos homens se conforma a esse preconceito e por que estão todos assim tão naturalmente propensos a abraçá-lo. Mostrarei, depois, sua falsidade e, finalmente, como dele se originaram os preconceitos sobre o bem e o mal, o mérito e o pecado, o louvor e a desaprovação, a ordenação e a confusão, a beleza e a feiura, e outros do mesmo gênero. Não é este, entretanto, o lugar para deduzi-los da natureza da mente humana. Será suficiente aqui que eu tome como fundamento aquilo que deve ser reconhecido por todos, a saber, que todos os homens nascem ignorantes das causas das coisas e que todos tendem a buscar o que lhes é útil, estando conscientes disso. Com efeito, disso se segue, em primeiro lugar, que, por estarem conscientes de suas volições e de deus apetites, os homens se creem livres, mas nem em sonho pensam nas causas que os dispõem a ter essas vontades e apetites, porque as ignoram. Segue-se, em segundo lugar, que os homens agem, em tudo, em função de um fim, quer dizer, em função da coisa útil que apetecem. É por isso que, quanto às coisas acabadas, eles buscam, sempre, saber apenas as causas finais, satisfazendo-se, por não terem qualquer outro motivo para duvidar, em saber delas por ouvir dizer. Se, entretanto, não puderem saber dessas causas por ouvirem de outrem, só lhes resta o recurso de se voltarem para si mesmo e refletirem sobre os fins que habitualmente os determinam a fazer coisas similares e, assim, necessariamente, acabam por julgar a inclinação alheia pela sua própria. Como, além disso, encontram, tanto em si mesmos, quanto fora de si, não poucos meios que lhes é útil, como, por exemplo, os olhos para ver, os dentes para mastigar, os vegetais e os animais para alimentar-se, o sol para iluminar, o mar para fornecer-lhes peixe, etc., eles são, assim, levados a considerar todas as coisas naturais como se fossem meios para sua própria utilidade. E, por saberem que simplesmente encontraram esses meios e que não foram eles que assim os dispuseram, encontraram razão para crer que deve existir alguém que dispôs esses meios para que eles os utilizassem.”



Interpretação do texto de Spinoza

            Esse preconceito, do qual todos os outros derivam, é o preconceito finalista, ou seja, é o preconceito que os homens têm ao achar que todas as coisas da natureza agem em função de um fim. Visto que os homens são ignorantes, ao tentar explicar as coisas, eles explicam da forma que é melhor para eles, ou seja, da forma que lhes convêm e tendem sempre a buscar o que lhes é útil.
            Segundo Spinoza (2005), ao encontrar tantas coisas na natureza, o homem pensa que pode usufruir delas, pois ele não entende que cada uma tem sua própria causa para existir, cada uma tem seu valor independente do homem; logo, o homem tende a ver as coisas como se tivessem sido feitas para o seu próprio uso. E os homens fazem isso com base no argumento de que existe um Deus gerador que criou todas as coisas da natureza em função deles. Assim, criaram inúmeras formas de cultuar os deuses para que esses continuassem, por assim dizer, a satisfazer os seus desejos.
            O preconceito finalista virou superstição e cada vez mais os homens tentaram explicar a finalidade das coisas baseados em suas teses sobre um Deus gerador, e logo acharam um meio preconceituoso de explicar as coisas desagradáveis que ocorrem na natureza, como terremotos e doenças. Eles disseram que esses eventos naturais aconteciam por causa da ira dos deuses diante das faltas cometidas pelos homens.  Ao invés dos homens perceberem que esses eventos ocorreriam de qualquer modo, pois estão previstos pela natureza e fazem parte dela, eles preferiram continuar ignorantes e explicaram tudo baseados na tese da vontade divina. Deleuze deixa bem clara a crítica que Spinosa faz ao preconceito finalista:

A crítica de Spinoza possui dois pontos culminantes: não há nada de possível na natureza, isto é, as essências de modo não existentes não são modelos ou possiblidades em um entendimento divino legislador: não há nada de contingente na Natureza, a saber, as existências não são produzidas pelo ato de uma vontade divina que, à maneira de um príncipe, poderia ter escolhido outro mundo e outras leis.” (Deleuze, 2002: 95)  

             Para Spinoza (2005:43), essas superstições de que existe um Deus legislador afastam os homens do conhecimento verdadeiro das coisas. Só razões como as da matemática, as quais não se ocupam dos fins das coisas, mas das essências e propriedades dos objetos, é que poderiam levar os homens ao conhecimento verdadeiro e afastá-los desses preconceitos, que fazem permanecerem ignorantes os homens.
             De acordo com esse preconceito finalista, o homem acredita que vive de forma livre, pois Deus fez todas as coisas para ele usufruir como bem entender. Só que o agir do homem é condicionado à finalidade, ou seja, o homem é movido cegamente pelas suas vontades, ele é movido como uma marionete e crê que age livremente. Ele faz isso porque ignora as forças que o impelem. Para Spinoza, Deus é natureza, substância única e causa de si, e os homens estão submetidos às leis da natureza e a vontade está submetida às leis da natureza assim como todos os outros fenômenos. Para tudo há uma causa e esta causa encontra-se na natureza, não em um Deus criador.
            Sendo assim, os homens não têm poder sobre suas escolhas, eles não são autores dos seus desejos, apenas seguem uma série de determinações causais sem conhecê-las totalmente. Com isso, Espinosa conclui que o livre-arbítrio não passa de uma ilusão, não passa de imaginação humana e o que a doutrina finalista faz é inverter a natureza, considerando como efeito o que é causa e vice-versa.
            Segundo Spinoza (2005), os homens tentaram explicar a natureza, mas eles apenas imaginaram como as coisas estavam dadas na natureza e, confundindo intelecto com imaginação, fizeram algumas divisões denominando as coisas de perfeitas ou imperfeitas, de acordo com o modo pelo qual eram afetados por elas. Assim, quando um cheiro desagradava ao olfato, era chamado de malcheiroso; se agradasse, era chamado de perfumado etc. Dessa forma, os homens estabeleceram os contrários por meio de exclusão: se fosse agradável, era perfumado e se não fosse, malcheiroso.
            Os homens só fizeram isso porque permaneceram na ignorância, achando que todas as coisas tinham sido feitas para eles e, se não os agradasse, só podiam ser imperfeitas. Como fica claro na filosofia de Spinoza, as leis da natureza só produziram coisas extraordinárias, e a perfeição das coisas só deve ser avaliada pela sua natureza e potência, ou seja, não são os homens que determinam a perfeição ou imperfeição das coisas que existem na natureza, até porque elas não foram criadas para eles.
           
                                    Questões e questionamentos sobre o texto

1-      Por que a substância Spinozista difere da substância cartesiana?
2-      O que podemos entender com o conceito “Deus sive natura
3-      Defina de maneira resumida e com as palavras do texto o que Spinoza chama de preconceito finalista.
4-      O conceito de substância é esclarecido em qual livro da Ética spinozista?
5-      Em quantas partes está dividida a Ética de Spinoza?
6-      Por quais motivos o filósofo foi excomungado pelos judeus?
7-      O Deus de Spinoza é o mesmo Deus judaico-cristão?
8-      O que podemos aprender com a filosofia Spinozista descentralizadora do sujeito?
9-       Por que dizemos que a Ética é demonstrada ao modo dos geômetras?

Proposta de atividade

        Como atividade, estamos propondo um jogo com as proposições da Ética I de Spinoza para que o aluno possa relacionar as proposições com as definições. Dois ou mais alunos disputariam o jogo.
     As proposições e as definições já estariam dadas em uma espécie de quadro ou tabuleiro e o aluno devera interliga-las. Ele deve fazer isso ligando a definição que ele acha que mais se parece com a proposição que foi dada. Venceria o jogo o aluno que mais acertasse a relação entre as proposições e definições spinozistas. Desse modo, os alunos iriam se divertir e interagir aprendendo conceitos de uma das principais obras filosóficas da modernidade e fariam a leitura da obra do modo geométrico como o autor propôs.
Exemplo: Proposição 1. Uma substância é, por natureza, primeira, relativamente às suas afecções= Definições 1 e 3.
 Definição 1- Por causa de si compreendo aquilo cuja essência envolve a existência, ou seja, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente.
Definição 3- Por substância compreendo aquilo que existe em si mesmo e que por si mesmo é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não exige o conceito de outra coisa do qual deva ser formado.

Sugestão de atividades

          Visitar o site francês Spider Spinoza e ir clicando nos conceitos da Ética para que se forme o emaranhado e a conexão entre esses conceitos, a fim de melhor entender a divisão geométrica da obra de Spinoza e os seus conceitos chaves.
           Visitar o site da revista Conatus, que foi feito para divulgar os trabalhos dos pesquisadores e estudiosos da obra de Benedictus de Spinoza.



  Referências Bibliográficas
SPINOZA, Benedictus de. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
DELEUZE, Gilles. Espinosa Filosofia prática. Tradução de Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. São Paulo: Escuta Editora, 2002.






1 comentários:

Tairone L. Barros disse...

Otimooo blog envie conteudo para meu email se possivel sobre tempo e amor..
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