quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sobre a introdução à história da filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831)

Sobre a introdução à história da filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831).

Composição: Vinicius Alves Vieira.

Análise da vida e da obra do autor por Henry Thomas e Dana Lee Thomas em Vidas de Grandes Filósofos, Editora: Globo (Rio de Janeiro - Porto Alegre - São Paulo). Ano: 1965. :

“... Nada havia em seu procedimento ou em sua aparência externa que o distinguisse. A essência de sua personalidade residia em sua vida interior.
            Jamais, por um momento, abandonara a atitude mental da família de que descendia. Ao ponderar sobre os elementos desconhecidos na equação da existência, não concluía sua investigação com o dar de ombros dos cépticos. Porque não era como o inglês Locke nem como o escocês Hume. O caráter alemão que nele havia, construíra uma filosofia da fé, e a escrupulosa exatidão que herdara resultou na especulação metafísica mais complicada que o mundo já vira. Era um funcionário público que trabalhava arduamente nos escritórios administrativos da rotina oficial, sob a jurisdição de um deus burocrático.
            O mundo é inteligível, disse Hegel. A razão encontra-se no âmago das coisas, sob a aparente falta de unidade, à superfície. Os cépticos, como Hume, haviam lançado a dúvida no espírito dos homens e criado uma atmosfera de cinismo que produzira aventureiros sem escrúpulos, como Napoleão. Quando o homem perde a fé nos valores da vida humana, a civilização retrocede. Porque a vida é um grande e sistemático esquema da verdade. O homem pode compreender essa verdade através de suas faculdades de raciocínio, mesmo que não a possa apreender por meio de suas faculdades sensoriais. Em outras palavras, lança Hegel, diretamente, um desafio a Hume. Afinal de contas, é possível ao homem conhecer as coisas além de sua experiência através de sua razão. Há dois tipos de razão: a razão prática, que trata com os problemas cotidianos e com objetos sensíveis que têm existência tangível, e a razão abstrata, que trata com ideias além de nossa existência sensória.
            E aí reside a dificuldade da questão – a principal divergência entre cépticos e metafísicos. Afirmam os cépticos que só existem as coisas que podemos apreender por intermédio dos sentidos. Os metafísicos, por sua parte, insistem em que há coisas, além dos sentidos, que têm uma existência igualmente real. Todas as nossas concepções não materiais – declara Hegel – existem tão seguramente como uma mesa ou uma cadeira.
Consideremos, por exemplo, a nossa concepção de quantidade. Temos visto, já, dois lápis, mas nunca vimos a quantidade abstrata, dois. E, no entanto, a concepção abstrata de dois existe na razão, tão seguramente como os dois lápis concretos existem no espaço. Pois sem a existência de uma medida abstrata de quantidade nunca seríamos capazes de distinguir as quantidades concretas das coisas de que tratamos.
            Há, por conseguinte, a razão pura em oposição à razão prática – ou, para dizê-lo de outra maneira, existe uma existência formal em oposição a uma existência material. [...] Esta é a proposição fundamental de Hegel. E sobre essa proposição, edifica ele a sua estrutura filosófica. [...]”.
 Introdução à História da Filosofia, por Hegel:
Na tentativa de sintetizar um pensamento complexo, pois requer, para mínima compreensão, uma incursão no desenvolvimento histórico do próprio conceito de filosofia, Hegel tenta expor nas duas introduções que faz do livro, as relações mais básicas e necessárias para alcançar e compreender “como pelo estudo da história desta ciência somos iniciados no conhecimento da própria ciência”. Seguiremos analisando e comentando os trechos que nos parecem mais relevantes para que possamos iniciarmo-nos,  junto com o autor, em um só tempo o estudo da história da filosofia e o filosofar propriamente dito. A história da ciência filosófica e a ciência filosófica aplicada.
Começamos com o seguinte trecho:
“A história da filosofia representa a série dos espíritos nobres, a galeria dos heróis da razão pensante, os quais, graças a essa razão, lograram penetrar na essência das coisas, da natureza e do espírito, na essência de Deus, conquistando assim com o próprio trabalho o mais precioso tesouro: o do conhecimento racional”. (Segundo parágrafo da segunda introdução à introdução da história da filosofia).
É assim que Hegel define o que representa a História da Filosofia. É dessa maneira também que um dos grandes devotos do Espírito se posiciona em relação ao que considera o mais relevante numa história (neste caso, a da filosofia), “visto que a história dum assunto está intimamente conexa com a concepção que dela se faça”.
O patrimônio da razão autoconsciente que nos pertence não surgiu sem preparação, nem cresceu só do solo atual, mas é característica de tal patrimônio o ser herança e, mais propriamente, resultado do trabalho de todas as gerações precedentes do gênero humano”.
 Hegel percebe toda a produção do homem ao longo dos tempos na história como a herança que se recebe das gerações que nos antecederam, ou seja, “as artes da vida externa, o complexo de meios, de habilidades, de instituições e de hábitos no convívio social e na vida política” nada mais são que “o resultado da meditação e da invenção, das privações, ou de acidentes da sorte, da necessidade e da perícia, do querer e do poder da história na sua evolução até o presente atual”. Conclui o pensador que, “se alguma coisa somos no domínio da ciência e da filosofia, devemo-lo à tradição”.
Não quer deste modo dizer o espírito pensante de Hegel que se deve manter a tradição como uma “estátua de pedra” que se conserva, mas sim o contrário, a tradição é herança viva que “continuamente se vai enriquecendo com novas contribuições, à maneira de rio que engrossa o caudal à medida que se afasta da nascente”. Ao mesmo tempo em que tal herança pode simplesmente degradar-se e chegar ao ponto de “servir de matéria para ser transformada e elaborada pelo espírito. Desta maneira se vai modificando o patrimônio herdado, e simultaneamente se enriquece e conserva o material elaborado”.
Hegel considera o conteúdo da tradição a própria forma de tudo o que o mundo espiritual produziu. E o espírito universal nunca permanece estacionário. “Ora, é do espírito universal que nos devemos ocupar aqui”. Assevera o autor. “A recepção desta herança equivale ao exercício da posse dela”. Nossa função será compreender a ciência existente, “modelar por ela nossa inteligência, e desse modo desenvolvê-la, elevá-la a um grau superior”. O mundo espiritual preexistente, produto de outros homens, nossos ancestrais, será sempre a base de onde partiremos e desenvolveremos nossa filosofia, futuro produto. Daí se segue que “o curso da história mostra, não o devir de coisas a nós estranhas, mas sim o nosso devir, o devir do nosso saber”.
Da natureza dessa relação entre a história da filosofia e a ciência filosófica dependem as ideias e os problemas que se podem propor relativos ao âmbito da história da filosofia. “Compreender devidamente esta relação permite alcançar como pelo estudo da história desta ciência somos iniciados no conhecimento da própria ciência”. E convém lembrar: “Este devir não é simplesmente um movimento passivo como imaginamos que seja o nascer do sol e da lua, movimento que se efetua sem contrariedade no espaço e no tempo. O que devemos representar ao espírito é a atividade do pensamento livre; devemos representar a história do mundo no pensamento, o processo do seu nascimento e produção”.
O que nos torna mais nobre que outros animais?
Segundo uma antiga opinião, a faculdade de pensar é o que separa os homens dos brutos. Aceitamo-la como verdadeira. O que o homem possui de mais nobre do que o animal, possui-o graças ao pensamento: tudo quanto é humano, de qualquer forma que se manifeste, é-o na medida em que o pensamento age ou agiu. Mas sendo o pensamento o essencial, o substancial, o efeitual, dirige-se a objetos muito variados; pelo que importa considerar como mais perfeito o pensamento voltado sobre si mesmo, ou seja, sobre o objeto mais nobre que pode buscar e encontrar”.
Hegel segue retificando seus argumentos fundamentais para representar uma história da filosofia, o que não é um processo simples e estático, mas complexo e dinâmico que envolve uma (des)construção de miríades conceituais. Elaborando uma teoria conceitual que visa clarear os usos possíveis e ao mesmo tempo justificar os usos dos conceitos [como: filosofia, história, espírito, ideia, forma, concreto e etc.] que considera necessários ao uso e apreensão do seu próprio conceito de história da filosofia, preocupa-se em validar sob a forma lógica o seu argumento ao propor teoricamente a experiência de pensamento de seu sistema metafísico da unidade, verdade e eternidade. Sua história da filosofia se faz antes pelo modo que se concebe a história e a filosofia.
Encontros no tempo (ano de 1816 no séc. XIX) marcados de discussões, discussões que necessitaram algumas horas de exposição e outras muitas horas de meditação em outros espaços-tempo... Novos encontros em tempo e espaço, retomada e progressão das discussões que necessitariam também novas meditações, e assim sucessivamente, as comunicações proferidas na universidade de Heidelberg constituiriam o conteúdo e o objeto que se materializaram em pouco menos de cem páginas, em forma de livro: Introdução à História da Filosofia, de Georg Wilhelm Friedrich Hegel.
[janela de outras obras do autor: filosofia da lógica, da natureza, fenomenologia do espírito, etc...].
Proposta de Atividades alternativas para pensar o tema:
Filmes (pensar ou copiar sinopses):
- O Mundo de Sofia.
- Sócrates, o filme.
-Santo Agostinho, o filme.         
Questões interativas:
1-     Se fosse preciso (situação hipotética) assumir a posição de Hegel ao considerar numa história “a série dos espíritos nobres, a galeria dos heróis da razão...”, quais nomes apareceriam para representar sua história da filosofia? Fundamente suas escolhas com base nos valores e nos princípios necessários para iniciar a sua história da filosofia, ou seja, como você se posiciona em relação ao que considera o mais relevante em sua história: “visto que a história dum assunto está intimamente ligada com a concepção que dela se faça”.

2-     Sobre as gerações passadas... Podemos pensar a partir do ponto de vista exposto por Hegel, que as gerações de seres humanos que hoje vivem, são parentes físicos e espirituais de todas as gerações que lhes antecederam, e de fato, são. De acordo com sua interpretação das passagens expostas no texto, marque as alternativas que mais parecem estar de acordo ao modo como você lida com as filosofias e as ciências produzidas por estes parentes distantes no espaço e no tempo:

(  ) “(...) A posição e a função de nossa idade, como aliás de todas as idades: compreender a ciência existente, modelar por ela a nossa inteligência, e desse modo desenvolvê-la, elevá-la a um grau superior (...)” (Hegel)
(  )      




                

0 comentários:

Facebook Twitter Delicious Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha | Adapted by Demetryus