quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Entrevista com Viviane Mosé

‘Para viver da filosofia, é necessário talento e paixão’, diz filósofa
Viviane Mosé cursou psicologia, mas se encontrou na filosofia.
Ela conta as possibilidades da carreira que exige muita leitura e dedicação.

Fonte: Site G1

Ela arriscou, trocou a carreira de psicanalista pela filosofia e hoje vive só de seus cursos, palestras, consultorias. Viviane Mosé, 43, diz que para viver da filosofia é necessário talento e paixão e dá dicas a quem pretende fazer o curso: “Se você não sabe se ama, teste primeiro. Se sentir que aquilo te fortalece, você vai ser um bom professor”.

No programa "Fantástico", da Rede Globo, Viviane apresentou a série “Ser ou não ser”, que levava a filosofia ao cotidiano. E hoje, a filósofa, poeta e psicóloga é chamada para as mais diferentes tarefas: desde palestras a atores da novela “Paraíso Tropical” até consultorias para executivos. Lei a entrevista.


G1 – Por que a senhora decidiu fazer filosofia?
Viviane Mosé -
Não fiz a graduação em filosofia. Fiz psicologia, e escolhi quando tinha 16 anos. Queria alguma coisa que fosse vinculada com o pensamento, que tivesse de ler mais do que qualquer outra coisa. Em Vitória, de onde vim, não tinha filosofia. E eu mal sabia o que eram os cursos. Fui meio na intuição. Mas, no primeiro dia de aula, tive a matéria de introdução à filosofia. Marcou: era aquilo que eu queria.

G1 – E fez toda a faculdade?
Viviane –
Fiz, mas fui monitora durante os cinco anos da disciplina de filosofia. Foi paixão imediata pelo pensamento, elaboração, pelo conceito. Daí, vim para o Rio e fiz mestrado e doutorado.

G1 – O que a senhora decidiu estudar na pós-graduação?
Viviane -
Já saí do curso de psicologia, com a intenção de estudar Nietzsche. No primeiro dia de aula na Federal do Espírito Santo (Ufes), estudei o existencialismo, que tem filósofos que trazem mais a questão da vida, da morte, da falta de sentido das coisas. E saí com essa idéia para o mestrado e o doutorado. Nunca imaginei que fosse dar aula de filosofia. Estudava pelo gosto. Virei psicanalista e já tinha meu sustento daí. 

G1 – Como foi que largou a psicanálise?
Viviane –
Para mim, só estudar filosofia já me deixava feliz. Aquilo me salvou das minhas angústias; foi maravilhoso. Quando comecei, fui dar aula de filosofia para atores. Já era poeta e tinha um reconhecimento. Fizemos o primeiro grupo de aulas e a gente fazia por prazer. Depois foi abrindo mais turmas.

G1 – Como foi fazer a série na TV? E depois, mudou muito sua vida?
Viviane -
O que eu mais pegava era uma coisa poética. Se a Dona Maria não entendia claramente o que estava sendo dito, ficava alguma coisa, ficava no afeto dela. Tentava atingir a inteligência racional e a emocional. Mas depois que fiz a série até diminuiu o número de alunos. Acho que muitos pensaram que eu cobrava caro [risos]. Hoje faço mais palestras, viajo.

G1 – Que tipo de palestra a senhora faz?
Viviane -
Em todas as áreas, comercial, novela. A última foi em “Paraíso Tropical”. Falei sobre o erotismo, Copacabana, sobre o que é o erotismo na vida da pessoa. Semana passada fiz para o encontro anual da área de esporte da TV Globo. Falei sobre o novo ser humano, sobre quem é nosso telespectador, sobre a importância do esporte no momento em que a gente vive.

G1 – Qual o perfil que deve ter quem vai cursar a graduação? Por que fazer filosofia?
Viviane –
Quando vim para o Rio, meu orientador me perguntou por que eu estava cursando. E eu respondi que era porque eu “precisava”. Filosofia não é um curso que se faz porque acha bonito. Para viver dela, a filosofia é como a pedagogia: é talento, é vontade. É uma carreira solitária, porque tem de ler muito. Exige um rigor muito grande de leitura. Se você não ama, como vai refletir, desdobrar? Você tem de observar a situação e ver o que ela carrega de sentido. É árido, é difícil. Não acho que exista uma dificuldade intelectual, mas difícil é ter disponibilidade afetiva para ficar muito tempo estudando. Meus amigos não entendiam que eu passava o fim de semana estudando. Mas se você não sabe se ama, teste primeiro. Se sentir que aquilo te fortalece, você vai ser um bom professor.

G1 – Não é muito difícil escolher filosofia aos 16, 17 anos de idade?
Viviane –
Até é possível, porque muitas pessoas muito cedo já percebem que esse é o caminho delas. Mas isso é mais exceção. Se a pessoa já teve aulas no segundo grau, até pode se encaminhar para o curso. É muito comum fazer outro curso e ir para filosofia.

G1 – Como é o mercado para quem cursa filosofia?
Viviane -
Hoje a filosofia está indo para ambientes diferentes, mas é necessário talento. Muitos podem contratar alguém que desenvolveu capacidade de analisar situações. Quando o mercado era mais determinado, não era assim. Mas no mercado financeiro, nas tecnologias e na relação com a moral, não se sabe mais o que é o dia de amanhã. Nessa instabilidade, quem pode questionar, pensar, avaliar situações de risco é o filósofo.

G1 – Onde estão esses empregos?
Viviane -
A maior parte é em empresas. Mas precisa ser alguém que não aprenda os textos e saiba apenas dar aula. Tem de ir além. Precisa ser alguém que possa ajudar executivos a desenvolver a reflexão e a crítica.




(Postado por Michel Franco)

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