terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Iniciação à Filosofia: Política, Educação e Conhecimento em Platão


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Produção de material didático.
PIBID e NEPE (Filosofia Antiga)
(Postado por Erick de Oliveira Santos Costa)


Iniciação à filosofia: política, educação e conhecimento em Platão



O poder da palavra

Por volta de século IV a.C., já se encontravam constituídas na Grécia diversas Cidades-Estado. Nessa época a oratória era o principal veículo da educação, formação cultural e posicionamento político. Platão vivencia em grande parte o período democrático de Atenas, em que os cidadãos (homens nascidos em Atenas, exceto escravos e mulheres) tomavam as decisões políticas nas assembleias. Mas muitos desses cidadãos se voltavam mais para seu negócios particulares, e outros tantos ficavam sob influência dos oradores mais hábeis. A eloquência se torna uma forte potência, e o ensino da retórica um negócio. Surgem então os sofistas, homens que viajam pelas cidades gregas ensinando como se ter êxito na vida e ser um bom orador. E isso, aos olhos de Platão, era um problema. Pois, com os cidadãos cada vez mais preocupados com a arte de falar, e não com o que falar, ou seja, em falar bem e não em falar a verdade, a retórica – por ter como principal objetivo a persuasão – estava gerando, segundo Platão, uma crise na política e no conhecimento.
Outra preocupação do filósofo era a poesia – que tinha por conteúdo o mito. Naquele período, quase toda a estrutura cultural era fundada sobre a memória das pessoas, e a palavra tinha como função básica a gestão da memória social. O ritmo, a rima e a beleza da poesia a tornavam de fácil memorização, e a faziam cair no gosto popular, se tornando, assim, sólida na cultura. Esse é um dos motivos que determinavam a poesia como base da cultura grega. Platão tinha ciência do poder que a poesia tinha para difundir valores, mas via em seus versos muitos maus exemplos. Divindades que cometem atos de vingança, que se fazem passar por seres humanos, e que estão sujeitas aos mesmos desejos e imprudências que nós; injustiças que são perdoadas através de sacrifícios e oferendas, etc. Para Platão, esse tipo de educação não tornava a injustiça algo digno de preocupação. E considerava que, possivelmente por isso, a prática de atos injustos era vista por muitos como vantajosa.
Esse filósofo, em especial, reconhecia a importância da oratória e da poesia na educação, na política e na formação cultural, mas não via com bons olhos a forma com que ela vinha sendo utilizada. Para ele, qualquer tipo de aprendizagem, discussão ou mito, deveria favorecer o acesso à verdade. O objetivo da educação é de fato o conhecimento da verdade, que seria alcançado através da filosofia. Com a educação seguindo esses preceitos, uma cidade poderia, segundo Platão, até mesmo alcançar a perfeição.

A Cidade ideal

Descontente com o meio político em que vivia, Platão sugeriu uma cidade ideal, em que a educação é a base de sua estrutura. A educação nessa cidade não seria mais oferecida apenas a quem pudesse pagar, ou seja, os sofistas não seriam mais seus educadores. A educação seria oferecida pelo Estado. Essa educação seria voltada para aqueles que possuíssem natureza própria para governar e defender a cidade. A princípio, os filhos de guardiões, que mostrassem natureza similar a de seus pais, receberiam esta educação. Mas, se na cidade outras crianças se mostrassem aptas aos estudos, também poderiam recebê-la. Aos que se mostrassem incapazes de se engajarem nos estudos, caberia se enquadrarem na classe produtiva, e se especializarem em funções como comércio, agricultura e artesanato.
Todas as crianças que tivessem natureza ou tendência guerreira seriam postas num infantário, para serem criadas e educadas juntas, como irmãos. Seria importante que os pais não soubessem quem fossem seus próprios filhos, ou os filhos, seus pais. Dessa forma o afeto que se tem por um filho deveria se direcionar a todas as crianças desta cidade. Os guardiões defenderiam e respeitariam a comunidade como quem o faz pela sua família, e a cidade, de fato, deveria ser uma família.Os valores que antes eram passados de forma múltipla, agora o seriam de forma única. Esses jovens receberiam, desde a infância, como base da educação, formação em ginástica e música: ginástica para um bom desenvolvimento corporal e a música para desenvolver a harmonia da alma - dito de outra forma, para serem o que entendemos por “pessoa equilibrada”. Decorridos vinte anos, aconteceria uma grande seleção para um próximo nível educacional, que serviria de preparo para o estudo da dialética. Aos que permanecessem estudando, durante os dez anos seguintes, dedicar-se-iam às ciências: aritmética, geometria, astronomia e estereometria. E ao completarem trinta anos começariam a estudar dialética. Para os que não prosseguissem caberia permanecer com a função de guardião auxiliar da cidade. Esses guardiões, já sendo observados desde a infância, continuariam sendo observados e examinados. E os que demonstrassem inteligência, autoridade e que exercessem com todo empenho aquilo que fosse bom para a cidade, jamais aceitando fazer o que não fosse bom, receberiam o cargo de comandante.
O governo dessa cidade, só poderá ser exercido por quem tiver superado todas as etapas de formação propostas pelo Estado. Por ter o conhecimento dos princípios – conhecimento do “por que” as coisas funcionam de tal maneira – o filósofo é o único que está apto a gerenciar uma cidade. O filósofo tem conhecimento do que é o bem, e dessa forma sabe o que é melhor para a cidade e para as pessoas que ali habitam.
Tudo o que diz respeito à formação das pessoas deveria ser regulamentado pelo Estado, para evitar que se desencadeasse uma propensão ao mal. A arquitetura, a música e os poemas deveriam reproduzir beleza e bondade. Pois, se as pessoas fossem habituadas dessa forma desde a infância, saudariam a beleza e a bondade contida em suas atividades por afinidade e, sobretudo, por terem sido assim educadas. Para Platão, quando a educação tem bons preceitos, torna a natureza de quem é educado boa, e essas pessoas, por conseguinte, se tornam melhores que seus antecessores. A geração seguinte, que seria educada por estas pessoas, seria ainda melhor, e assim por diante até que se alcançasse uma educação perfeita.

Compreendendo as Ideias

Em Platão, Ideia não se refere a tudo aquilo que se passa em nossas mentes quando pensamos. Embora o pensamento seja fundamental para alcançá-la, não se trata apenas disso. Ideia é o que Platão define por objeto de conhecimento (isto é, aquilo que pode ser conhecido). Ideias são princípios que podem ser alcançados através do intelecto pela reflexão filosófica, que na época era feita, em grande parte, através de um método de discussão chamado dialética. A dialética é um argumento conduzido por meio de pergunta e resposta, que se apoia na concessão de um adversário, e que visa refutar esse adversário tirando daí consequências contraditórias. Segundo Platão, as Ideias são alcançadas por meio das hipóteses, que são levantadas em meio a essa discussão: cada hipótese levantada é superada, abrindo espaço para que uma outra seja levantada acima desta, servindo como uma espécie de degrau. Assim sucessivamente, até que se chegue a algo que não admita hipóteses, ou seja, a Ideia.
Platão não considerava a possibilidade de que um objeto sensível pudesse ser conhecido, ou seja, tudo aquilo a que temos acesso através dos sentidos não pode ser considerado objeto de conhecimento. Existem vários motivos para que ele defendesse essa posição. Citemos alguns deles: Como conhecer algo que está sempre mudando? O princípio da beleza, por exemplo, não pode estar num objeto. Pois, todos os objetos sensíveis mudam com o passar do tempo, e sempre haverá a possibilidade desse objeto deixar de remeter a essa propriedade. Em seguida, como atribuir caráter de objeto de conhecimento a algo que é finito? Embora objetos considerados belos possam deixar de existir, a Ideia de beleza sempre permanecerá. Uma outra questão é de como cofiar algo como o conhecimento aos nossos sentidos, se eles são suscetíveis a falha? E por fim, como é possível dizer que conheço algo que, dependendo do contexto é definido de diversas formas? Para Platão, aquilo que podemos identificar como objeto de conhecimento deve respeitar algumas exigências, como por exemplo, ser invariável, infalível, não-relativo e eterno. Podendo, dessa forma, ser conhecido por qualquer ser racional em qualquer época e contexto.
As coisas sensíveis Platão define como cópias das Ideias, que pertencem a uma plano que só nos fornece aparências. Todas as coisas a que temos acesso através dos sentidos estão no plano das aparências, na qual exercem um tipo de participação com as Ideias. Por exemplo: belo é algo que existe, independente de qualquer objeto sensível, se um objeto me remete à beleza, é sinal de que esse objeto está exercendo uma espécie de participação com Ideia de beleza. Compreendido isso, falemos agora do mundo inteligível. Para Platão, existe um plano onde se encontram os princípios de todas as coisas. Esses princípios são as Ideias, e essas, sim, são consideradas objetos de conhecimento. No mundo inteligível está tudo aquilo que Platão define por real, ou seja, as ideias. Nesse plano as coisas são incorpóreas, perfeitas, eternas e em si.
Com isso vimos a posição de Platão quanto ao conhecimento. Mas como acontece o processo de conhecimento? Como se inicia este processo? É possível conhecer algo a partir do nada? Como alguém buscará conhecer algo que não sabe o que é? E se no melhores dos casos achar, com saberá que é aquilo que procurava? Bom, Platão sugere a seguinte resposta: A alma humana antes de prender-se ao corpo (antes do nascimento) é puramente incorpórea como as Ideias, e certamente elas estariam num mesmo plano e isso permitiria que a alma as contemplasse. Quando encarnada, a alma perde o contato direto com as Ideias, e a partir de suas cópias (coisas sensíveis) vai recuperando aos poucos, contando com a ajuda da razão, o conhecimento das Ideias. Partindo do ponto em que as Ideias são eternas, apenas por si e princípio de todo o conhecimento, definimos o processo de aprendizado como rememoração de algo que, no plano em que estávamos anteriormente, era evidente. Os princípios existem, e ao chegarmos até eles através do raciocínio, os reconhecemos. Essa é a forma sugerida por Platão para solucionar o problema do aprendizado.

Mito da Caverna

Imaginem homens que habitam uma caverna subterrânea desde a infância. Estão acorrentados de tal forma, que só conseguem olhar para frente. Atrás deles está a saída. Lá fora, num elevado distante, arde um fogo que lhes serve de iluminação. Entre essa fogueira e os prisioneiros, há um caminho ao longo do qual fora construído um pequeno muro. Do outro lado desse muro homens caminham carregando estátuas de homens, e animais de todas as espécies. E como é de costume dos que lá fora caminham, uns conversam outros ficam calados. Essas estatuetas ultrapassam o muro, e a fogueira faz com que suas sombras sejam vistas no fundo da caverna. E por não conhecerem nada além do que as sombras vistas no fundo da caverna, e os sons que os homens fazem do lado de fora, os habitantes da caverna tomam isso por real. E sem ver uns aos outros, nas suas conversas nomeiam as sombras, como quem nomeia objetos reais.
Suponhamos que esses prisioneiros possam ser libertos. Logo que alguém libertasse um deles, e o forçasse a olhar para luz, sentiria uma forte dor. E mesmo que lhe dissessem que até então ele só vira coisas ilusórias, e que agora está mais próximo da realidade, até mesmo se lhe mostrassem os objetos do lado de fora, dificilmente acreditaria no que estavam lhe dizendo, devido à grande dificuldade que terá para enxergá-los. Esse homem só sairá dali arrastado, e por ser assim arrastado, é natural que sinta dor ao chegar do lado de fora. A luz do sol lhe ofuscará a vista, e precisará de algum tempo para se habituar a esse novo ambiente. Enxergando primeiro as sombras e os reflexos na água, logo em seguida os homens e os objetos; após isso conseguirá contemplar o céu, a lua e as estrelas; e por fim conseguirá dirigir seu olhar para o sol. E só então entenderá que sua luz é o que nos proporciona enxergar todas as coisas.
E se esse homem se lembrasse de seus antigos companheiros, e tentasse libertá-los de tal ilusão? Aqueles homens já viviam ali há bastante tempo, de tal modo que os que distinguiam melhor aquelas sombras recebiam honras, louvores e recompensas. E se o homem liberto para lá retornasse, enxergaria com dificuldade. E longo será o tempo para se acostumar de novo. Os habitantes da caverna, não acreditariam na sua palavra. Diriam que estragou seus olhos ao sair da caverna, e que não vale a pena conhecer o mundo lá fora. E, se esse homem tentasse os tirar de lá a força, certamente seria morto.

Aplicação do mito

O principal aspecto que o mito da caverna traz, principalmente para quem está iniciando os estudos em filosofia, é o princípio da dúvida, que está no cerne da filosofia e de qualquer outro tipo de conhecimento. É preciso antes duvidar de tudo aquilo que nos parece óbvio para buscar um novo conhecimento, e até mesmo para dar ouvidos aqueles que nos relatam saberes que vão de encontro a tudo aquilo em que acreditamos. Nesse contexto, é importante que questionemos nossos saberes, e os que nos são propostos, para avaliar se são os melhores, ou até mesmo se são saberes verdadeiros. Como diria Platão, uma mente razoavelmente inteligente supera seus preconceitos.
O mito é uma metáfora que ilustra a natureza humana relativa à educação, ou à falta dela. Nele é traçada a trajetória do filósofo, a forma com que as pessoas se comportam frente a ele e como essas pessoas se organizam de acordo como sua forma de saber tradicional. E embora seu formato seja voltado para a filosofia platônica, sua interpretação pode ter uma abrangência bem maior.
A Caverna representa o que, na filosofia de Platão, é o plano das coisas sensíveis, ou de forma mais ampla, aquilo que o senso comum toma por realidade. Do lado de fora está um saber diferente, distinto de tudo que se acreditava até então, o que para Platão era o real, as Ideias. A fogueira do lado de fora representa uma imagem distorcida do que é o bem, que será devidamente representado pelo sol. E os prisioneiros representam as pessoas que vivem nas trevas, sem perceber que a verdadeira realidade pode estar muito além daquilo que se passa diante dos seus olhos.
Em meio ao senso comum, podemos imaginar uma sociedade, na qual existem valores, saberes e formas de organização. Nesta sociedade aqueles que dominam melhor esses saberes (do senso comum) recebem honras, louvores, recompensas, posições mais altas numa hierarquia e certamente serão também os governantes. Estes já estão muito arraigados a esse tipo de saber, e dificilmente irão ceder a uma opinião diversa. E mesmo que se sintam tentados por essa possibilidade, é mais interessante para eles manterem-se em uma realidade em que são os mais importantes, do que se entregar a um mundo completamente novo e indeterminado.
Essas pessoas, e todas aquelas que se submetem a elas, tem como fonte de luz a fogueira. Como vimos, a fogueira é uma imagem enganosa do que seja o sol, que no mito representa o bem. Para Platão, o bem é aquilo que motiva nossas ações, é nosso objeto de desejo. E só desejamos aquilo que não é o bem se estivermos enganados. Os prisioneiros da caverna se enganam sobre o que é de fato o bem, e governam seu mundo através dessa ideia distorcida. E o filósofo, ao entender o que é o bem, deverá retornar à caverna para mostrar a seus antigos companheiros a verdade. Mas isso levará tempo, pois ele deverá acostumar seus olhos novamente às trevas, deverá compreender novamente o senso comum, para direcionar aquelas pessoas segundo o bem verdadeiro, e a algumas delas conhecer a verdadeira realidade.


Questionário


  1. Cite um motivo que levou Platão a ser contra a democracia.
  2. Na cidade idealizada por Platão quem deveria ser o governante?
  3. Cite dois motivos que levaram Platão a não considerar como objeto de conhecimento tudo aquilo que temos acesso através dos sentidos.
  4. Se interpretarmos o mito da caverna, segundo a filosofia Platônica, o que devemos identificar como sendo as coisas existentes no exterior da caverna?
  5. O que está sendo representado no interior da caverna?
  6. No mito alguns homens detinham muitos saberes acerca do que eles consideravam real, e dessa forma também detinham poder. Que fenômeno semelhante a este podemos ver nas sociedades?




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